Distribuir palavras talvez possa ser fraqueza e deixa à mostra do inimigo alguma insensatez. Melhor não dizer. Melhor calar-se e mostrar-se sorrateiramente. Deixa assim, o dito pelo não-dito. E ficamos bem.
terça-feira, 20 de março de 2012
Um pouco de velharia
Ainda estou tentando digerir toda esse resto. Sinto-me enojada e com uma grande vontade de botar para fora tudo isso que sempre me causou náuseas. Não sei o que é pior, conviver com o resto, mas saber que ele está ali, ou simplesmente jogá-lo fora. Por um momento, esta foi a decisão mais sensata. Esse jogar fora foi a única forma de me manter de pé, de não mais me sufocar. E, nessa distância, consigo te ver, verdadeiramente. Não sendo mais resto, mas tentando ser pleno, cantarolando junto às moscas que tu mesmo abominaste. Sorrias, gargalhas, como criança que encontra novos brinquedos. E, assim, nesse joguete, vejo o quanto me deixei ficar presa, estática. Não tive meus brinquedos plenamente, e ainda fizeste questão de roubá-los de mim. De novo. Roubaste a cena de desencanto, e encantas, como sempre foi. Tornei-me lataria, ferrugem, envelhecida. Sem brilho, sem cor, sem chão. Mas, por ironia, ou (im)perfeição, há um velho rádio perto de mim, que soa algumas peripécias. Algumas vezes, ele diz, quase sem voz, que eu não me deixe abalar, que, em breve, tudo será reciclado. Renovar é preciso, minha cara, seu tempo chegará. Aproveite o ofuscamento para rever onde seu brilho se faz necessário. Há luzes ofuscantes, e só as enxerga quem nunca deixou de brilhar.
Maysa Sales
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