... Mais ínfimo, mais secreto, mais banal.
O amor. É tão pequeno, tão miúdo, tão abstrato, que não cabe na concha das mãos, e se engana quem acha que ele cabe no coração. Ele cabe em si e ponto. Não se deixa ficar, não cria ninho. Ele vira sangue, água, luz, escuridão. Se o homem ainda não descobriu a fórmula de ser mutante, é só perguntar pro amor. Com certeza, ele terá a resposta na ponta da língua. O amor é muito é confuso, ah, isso sim. Porque ele vai além da vida. E além da morte. É além dos sentidos. E além do ser. Ele vai, volta, repousa, anda, cospe, chove, não molha, reproduz e nasce. E se recria e se reinventa. Voa, viaja, cai de paraquedas, vai a Marte e ao Japão. Vira rima, vira verso, vira ponto de interrogação. E não se permite começar nem acabar.
Maysa Sales
Amor, então
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
a noite
me pinga uma estrela no olho
e passa
Paulo Leminski in Caprichos e relaxos