"Assim, minha mágoa se renovando sem cessar, e me achando mais perdida a meus olhos - como a todos os olhos que tivessem querido me fixar, se eu tivesse sido condenada para sempre ao esquecimento de todos!- tinha cada vez mais fome da sua bondade. Com seus beijos e seus abraços amigos, era enfim um céu, um céu sombrio, em que eu estava e onde desejaria ser deixada, pobre, surda, muda, cega. Já ia me acostumando. Emocionados, trabalhávamos juntos. Mas, depois de uma carícia penetrante, ele dizia: 'como isso te soará engraçado quando eu não estiver aqui, isso por que passaste. Quando não tiveres mais meus braços em volta do pescoço, nem meu peito para nele descansares, nem minha boca fechando-te os olhos. Porque é preciso que eu vá embora, para longe, um dia. E tenho de ajudar a outros, é meu dever. Embora isso não seja apetecível... cara amiga'... Em seguida, o pressenti, tendo partido, presa de vertigem, precipitado na sombra mais temível, a morte. Fazia com que prometesse que não me abandonaria. Vinte vezes fez essa promessa de amante. Era tão superficial quanto eu lhe dizendo: 'Te entendo'".
Rimbaud in Uma temporada no inferno
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