Distribuir palavras talvez possa ser fraqueza e deixa à mostra do inimigo alguma insensatez. Melhor não dizer. Melhor calar-se e mostrar-se sorrateiramente. Deixa assim, o dito pelo não-dito. E ficamos bem.

sábado, 22 de setembro de 2012

"Quero tomar todo caminho de volta até aquele início, e tudo o que fiz não terá sido nada, terá sido menos do que varrer um umbral, ao qual o visitante seguinte trará novamente o rastro do caminho. Tenho séculos de paciência em mim e quero viver como se meu tempo fosse muito grande. Quero recolher-me de todas as dispersões, e dos usos muito precipitados quero ir buscar e poupar o que é meu. Mas ouço vozes com boas intenções e passos que se aproximam, e minhas portas se abrem... E quando procuro pessoas, elas não me aconselham nem sabem o que quero dizer. E com os livros também sou assim (assim indefeso), e eles também não me ajudam, como se também eles fossem humanos demais... Somente as coisas falam comigo.

(...)

Mas ainda me falta disciplina, o poder trabalhar e dever trabalhar pelos quais há anos anseio. Falta-me a força? Minha vontade está doente? É o sonho em mim que obstrui toda ação? Dias passam, e às vezes ouço a vida que se vai. E nada ainda aconteceu, ainda não há nada real ao meu redor; e sempre volto a me dividir e me esparramo, e apesar disso gostaria tanto de correr sobre um leite de rio e tornar-me grande. Pois - não é, Lou? -, assim deve ser; queremos ser como uma corrente e não entrar em canais e levar águas aos pastos? Não é, devemos nos conservar juntos e murmurar? Talvez, quando ficamos muito velhos, devêssemos um dia, bem no final, ceder, nos estender e desembocar num delta(...) Querida Lou!"

Rainer Maria Rilke, sempre no traço, no poros, como um estanque a arrancar-me a pele.

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