Distribuir palavras talvez possa ser fraqueza e deixa à mostra do inimigo alguma insensatez. Melhor não dizer. Melhor calar-se e mostrar-se sorrateiramente. Deixa assim, o dito pelo não-dito. E ficamos bem.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A Clara Rilke, 17 de dezembro de 1906

"... Comigo acontece assim: estou verdadeiramente, apaixonadamente pronto a não desperdiçar nenhuma dessas vozes que devem chegar. Quero ouvir cada uma delas, quero retirar meu coração do peito e segurá-lo no meio das palavras de disputa e repreensão, de forma que ele não seja tocado por elas apenas de um lado, de longe. Mas ao mesmo tempo não quero desistir de meu posto ousado, tantas vezes irresponsável, e trocá-lo resignado, antes que a última voz, a mais extrema, definitiva, tenha falado comigo; pois somente nesse ponto sou acessível e aberto a todas elas, somente nesse ponto encontra-me tudo aquilo que em termos de destino, clamor ou poder quer me encontrar, somente a partir daqui poderei um dia obedecer, obedecer tão incondicionalmente como agora incondicionalmente resisto. Através de toda penetração prematura naquilo que como 'dever' quer me dominar e me fazer útil, eu bem que excluiria algumas inseguranças e a aparência daquele constante querer-escapar de minha vida, mas sinto que com isso também os grandes e maravilhosos gestos de ajuda que intervém em mim, uma sequência quase rítmica, seriam excluídos de uma ordem previsível, conduzida com energia e consciência do dever, à qual eles não mais pertencem."

Rainer Maria Rilke

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