Decepção é uma palavra estéril para mim, até que me aconteça...
Depois que aprendi a ser água, a chorar como a chuva só pelo profundo respeito que tenho por mim até me desvencilhar da angústia, aprendi outras coisas e recebi benefícios que vêm junto. Sei que muitas histórias desagradáveis se repetem: não acredito que seja porque o mundo “esteja perdido”, mas porque EU, dentro de tantas outras possibilidades, devo estar condicionada a viver a mesma história: primeiro passo que preciso dar adiante. Depois, seja lá o que o Outro tenha feito, ele o fez porque ME permiti que o fizesse, ou ainda, se é algo de sua índole, a minha sensibilidade falhou quando atraiu esta figura. Ou: por que percebi e aceitei que viesse para a minha vida? Que fantasmas meus esse Outro alimenta? Outro passo adiante. E assim, vou compondo caminhos mais ensolarados.
O mais bonito e mais profundo é quando você consegue se colocar passivamente, sinceramente no lugar do Outro, esquecendo suas dores e seu orgulho por um momento pra tentar entender que ele simplesmente pode estar condicionado às dificuldades, ao desamparo, ao desculpar-se, a não ser amado. Que ele deu exatamente o que tinha pra dar, que fez a única coisa que sabia fazer e que, ainda, deva sofrer mais do que qualquer pessoa que ele fira, porque não consegue amparar essa criança interna assustada que faz essa bagunça externa só pra chamar a atenção.
Eu detesto justificar os erros de alguém, até porque isto seria uma forma de me sentir superior quando julgo saber o que o Outro sentiu ou pensou quando agiu. É como se eu fosse tão sábia, que se o mundo inteiro falhasse eu teria as respostas...
Eu comecei o texto falando de uma decepção e continuei escrevendo num fôlego só, agora que ia concluir, descobri que quero mesmo é falar do amor:
Sabe quando você conhece o amor a si próprio? Quando sabe que não importa o que lhe façam porque você governa, escolhe, conduz a sua vida? Sabe quando você sabe que uma pessoa se sente bem ao seu lado só porque você sorri sinceramente? Quando você atrai muita gente saudável, dessas que sabem que merecem ser felizes integralmente e se trabalham, se melhoram a cada dia e que não economizam entregas? E que quando estão próximas, trazem à tona o que você tem de mais interessante? Eu sei tanto que imagino que alguém que decepcione voluntária ou involuntariamente por vaidade ou por maldade, certamente o fez por uma condição penosa: de não o saber.
O que dói mesmo nessas circunstâncias não é só o que foi causado: é perceber que a pessoa está vivendo uma escolha que ela fez, que ela está mais disposta a lamentar e a se vingar do mundo a simplesmente perceber a dor profunda que está guardada embaixo de tanta raiva. Que não podemos amaldiçoar a chuva, o vento, o sol: tudo vem ao seu tempo e com seu mais exato por quê. E que talvez não nos alimente naquela nossa expectativa, mas que, em algum lugar, alguém vai beber daquela água, daquela luz, daquilo que pode parecer um grande estrago pra gente, mas que é necessária para beneficiar alguém, algo. Tudo intercalado, oscilando, essencial e UNO...
Eu ia falar de uma decepção, mas ela se dissipou aqui, agora.
Conheço melhor o AMOR!
Marla de Queiroz
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