Ainda hoje estava eu a divagar sobre mais um fim. De quantos fins sobrevivemos a cada dia?
O fim de um expediente, o fim de um almoço, o fim daquele relatório enorme. E o fim de nós mesmos, quando fechamos os olhos
e adormecemos por uns instantes. Instantes esses perdidos e que nos escapam.
E pensei mesmo no fim de mais um ano e pensei o que seria de nós se não tivéssemos 365 dias para recomeçar e 60 segundos para encerrar um minuto.
Aquele minuto de silêncio entre dois olhares que se interpelam, ou de duas bocas que se calam.
E, de repente, reli um texto de Clarice, no qual a escritora divaga sobre essa beleza do infinito: "Nós estamos tão longe de compreender o mundo que nossa cabeça não consegue raciocinar senão à base de finitos". Assim, vamos nos constituindo colocando pontos finais, vírgulas, parênteses. Criamos, a todo momento, formas
de limitarmos essa grandiosa infinitude da vida. Como a poeta nos coloca, sem entender essa infinitude, a compreendemos, e vamos vivendo.
Mais uma vez estamos aqui, diante de um novo ano. Para uns, a espectralidade de um novo ciclo causa arrepios.
O novo que se inicia infinitamente após o velho, carregando em si a marca desse outro que não se (lhe) escapa. Há tanta previsão diante desse outro, que, na verdade, penso que estamos simplesmente apenas obstinados pelo medo. Pois há como prever o que virá, só não sabemos ao certo como lidaremos com esse novo vivenciar, com essa continuação infinita do outro outro. Viver é muito perigoso, disse uma vez o poeta, que, muito em seguida, também afirmou que nem é tão perigoso assim. E diante desse it que se forma infinitamente, vamos seguindo nossos rastros e perpetuando-os. Faço-me nesse hoje que transborda de tanto amanhã, que grita pelo ontem. E que se contrai em legitimação, em certeza, em veracidade.
Foi apenas mais um ano. Que germinou e floresceu. Angústias, tristezas, sorrisos, sorrisos e sorrisos. A proporção de cada emoção me constituiu novamente um sujeito e me instituirá infinitamente mais em tantos amanhãs. Nessa infinita constituição incisiva de ser sendo.
Maysa Sales
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